- Ó mãe, o avô Machado é como as moscas.
- Como as moscas??!!!
- Sim. Também está no céu.
A Madalena com 30 meses:
É muito pespineta. A palavra não existe no dicionário, mas nós usamo-la muito cá em casa para a definir. É a adulteração da palavra pispirreta - tagarela, travessa, irrequieta, espevitada, presumida. A Madalena é assim: não se cala; não para quieta; quando está com outros miúdos, sobretudo mais novos, tem a mania que sabe tudo e quer mandar.
É pespineta, mas é também muito simpática. Mete conversa com toda a gente, conhecida ou desconhecida, e fala, fala, fala. Se estiver mais de 2 ou 3 minutos calada é porque está doente. Quer muita atenção e, se estivermos a falar de um assunto e não a incluirmos, ela pergunta: "Tás a falar de quê?". Se a interrompermos, diz: "Mas eu tava a falar..."
É uma menina de quem é fácil gostar por isso, porque fala com todos e é muito viva.
Tem bom coração - não gosta de ver ninguém triste. Fica muito preocupada e tenta logo resolver o assunto. Não descansa, enquanto não respondemos que sim à pergunta: "Já tás feliz?". O lidar com a tristeza é um problema. Ela não gosta e não consegue. Prefere mudar de assunto e esquecer.
Também não lida muito bem com a frustração. Se não consegue fazer alguma coisa, faz birra e não tenta resolvê-la.
É muito orgulhosa. Custa-lhe sempre pedir desculpa e só o faz porque insistimos. Algo a ser ainda muito trabalhado.
Mas não lhe custa nada dizer obrigado.
Gosta, claro, e precisa muito de brincar. Fica em stress se percebe que não tem tempo de brincar.
As brincadeiras preferidas são puzzles, livros, embalar e passear bonecos. Cá em casa há "bebés" espalhados por todo o lado, cobertos com as mais variadas mantas. É um vício que tem desde que teve capacidade motora para o fazer: tapar bonecos (e não só) com panos (do pó, da loiça, fraldas, babetes... Enfim, o que estiver à mão). Também gosta muito de ir ao parque, de jogar à bola e de andar de triciclo, mas o ponto forte não são as atividades físicas.
Se eu tivesse que dizer hoje o que ela vai ser, diria sem dúvida que terá uma profissão ligada aos animais. Adora animais e não tem medo, desde que sejam grandes. Enfrenta cães, gatos, porcos, vacas e já se dirigiu sem medo nenhum para todos os animais dos jardins zoológicos e parques biológicos que visitou. Mas, se lhe aparecer uma mosca, formiga, aranha ou outros desses seres perigosíssimos, foge a sete pés e faz um chinfrim.
Já é bastante independente, quando quer. Já consegue comer sozinha, ir à casa de banho sozinha (se a sanita for pequenina), despir-se quase totalmente (as camisolas nem sempre saem bem e anda a aprender a lidar com botões), lavar os dentes, as mãos e a cara. O problema é a preguiça. Apesar de conseguir fazer isto tudo, muitas vezes pede para a ajudarmos e nós ajudamos. Por vezes, também é mal mandada - só faz o que pedimos, se estivermos ali de sentinela a ver.
Faz birra com sono e com fome. Chora, esperneia e só acalma depois de dormir ou comer.
Volta, então, a ser tagarela, mexerica e meiguinha.
É assim a minha Madalena com 30 meses.
Apesar de não escrever regularmente, eu venho ao blog todos os dias. Visito toda a lista de blogs todos os dias. Espero por notícias todos os dias. Fico feliz e/ou triste com as novidades da blogosfera e comento-as em casa. Mas... Sou muito, muito preguiçosa para escrever e comentar.
Hoje, mais uma vez, vim cá e resolvi procurar pela Madalena de há um ano atrás. Apesar de ter escrito pouco, escrevi coisas de que já não me lembrava. Por isso, acho que devia escrever mais. Por mim, por ela. Para que a memória se mantenha e as coisas boas e más não se percam.
Vou tentar. Mesmo!
- Mãe, dá-me essa esponja?
- Não é uma esponja, é sabão.
- Poquê?
- Madalena, vai lavar as mãos!
- Poquê?
- Porque estão sujas.
- E estão sujas, poquê?
- O pai é menino?
- sim, o pai é menino.
- Poquê?
- Mãe, hoje é sábado?
- Não, Mada. Hoje é quarta-feira.
- Poquê?
Oh, meu Deus! Porquê a esta fase, porquê?
A Madalena disse, pela primeira vez de forma espontânea, não solicitada, nem como resposta:
- Goto de ti, mãe.
E, depois, viu o pai:
_ Também goto de ti, pai.
E, no fim, pergunta:
- Tás feliz?
No dia dos namorados.
A vida vai por arrasto.
Os dias sucedem-se com viagens, trabalho na escola, trabalho em casa, dormir e volta tudo ao mesmo. Não há tempo...
Nos fins de semana, é tudo igual, sem ter de ir à escola.
Quando acho que já fiz tudo, já são horas de dormir. E como eu preciso de dormir!
As aulas correm bem e o trabalho com os miúdos é compensador. Isso é bom.
Mas eu sempre quis ter tempo. Tempo para preguiçar, brincar, jogar, tempo para não fazer nada...
Nesta fase da minha vida, já não sei o que é isso há muito.
O tempo fugiu-me das mãos.
E tento curtir a minha filha. Pelo menos uma hora por dia. Nem sempre consigo. Às vezes, nem a vejo acordada.
E tento curtir o meu outro amor, que está mais longe que nunca. E não consigo.
E tento ter amigos, mas os que tinha estão tão longe.
E tenho saudades das conversas sem conteúdo com a minha mãe, com a minha avó, que está cada vez menos cá. Mas quase nunca estou com elas.
E os dias sucedem-se e a vida passa.
A Madalena tem defeitos, como todas as crianças, e eu não quero parecer uma daquelas mães insuportáveis que acham que os seus filhos são os melhores do mundo, mas a verdade é que aqui só me apetece falar das coisas boas dela. Se eu tivesse mais tempo e/ou disponibilidade, provavelmente falaria de mais coisas e até pediria ajuda para lidar com algumas birras e situações mais chatas. Mas hoje venho anotar coisas de que não me quero esquecer e que são engraçadas.
Isto tudo para dizer que sou uma mãe babada, porque a minha filha fala muito e bem. Mas há muitas expressões/palavras que não diz corretamente e que se tornam cómicas. Algumas dessas são:
I came home and it fell apart.
Era o que eu precisava agora.
É casa, jardim, roupa, Madalena, trabalhos e mais trabalhos para corrigir para ontem , papeladas da avaliação para entregar até sexta. Isto tudo no meio de noites mal dormidas.
Ando tão, tão cansada que, às vezes, só me apetece chorar.
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